Monday, March 07, 2005

POEMAS DE EDUARDO ALEXANDRE

Dunga, por Assis Marinho
Eduardo Alexandre - Desenho: Assis Marinho

Ingênuo
Bobo
Acredito no verso
E na vitória da Poesia
Contra o mal, a guerra.

Acredito na festa
E nas manifestações de paz
do Homem
manifestações de paz
do Homem

EDUARDO ALEXANDRE


MANIFESTOS DE PAZ
A todos que lutam
por um mundo de Paz.





ANTEVENDO O FIM DO PESADELO

Floresceram as acácias
as sapucaias
os flamboiaiãs

Voltou a raiar a liberdade no horizonte do Brasil
Germinaram as sementes
os ideais
as esperanças de dias de fé

Caíram as amarras
Desprenderam-se as ilusões!

Caiu em desgraça o verdugo
Sorriram os humilhados
Voltou a raiar a liberdade
No Horizonte do Brasil

Fez-se silêncio
Longe se fez ouvir o canto
Do uirapuru

Fizeram passar as bandas
os bois-de-reis
os caboclinhos

Pediram-se as cavalhadas
as vaquejadas
Brincou-se o carnaval

Ouviram-se cânticos de louvor a Deus
Vieram as passeatas
as procissões
Algazarras de crianças nas ruas

O povo saiu às ruas
Saiu às ruas o maestro
Caiu em prantos o avô
Que viu a liberdade chegar

A paz se fez na avenida
Na praça a democracia surgiu
Ninguém pagou pra ver o palhaço
O circo também saiu

Os justos encontraram conforto
Todas as mães sossegaram

Os urubus não desceram pro pasto
O girassol não morreu

Pôs-se o sol num horizonte
Num outro a lua nasceu

- Boca de forno !
- Forno !
- Tirando bolo !
- Bolo !

... e se fez festa
Cantaram as crianças
os passarinhos
Ouviram-se as flautas
os oboés
o sono dos que morreram

Cantaram as juritis
as pombas-rolas
Saiu da gaiola o canarinho !!!


Poesia


Haverá dia
Em que os poetas se unirão e dirão:
Que triste talvez fosse a nossa criação
Se não fossem as epígrafes.
Em que os políticos se unirão e dirão:
Que triste talvez fosse a nossa criação
Se não fosse a História.
Que os jornalistas:
A compreensão dos fatos.
Em que os escritores:
A compreensão da vida.
Os políticos:
O poder de decisão.
Os poetas:
A compreensão da vida.
Em que todos:
A compreensão da vida.

Haverá dia na vida
Em que a vida
Encontrará amor
Conviverá a dor

Se fará poesia...








Não vieram as andorinhas
os pintassilgos
os rouxinóis

Não veio o vento
a chuva
a invernada

Não veio nada.

Não veio o pai
Não veio o padre
Não veio a moça.

Veio o silêncio
a solidão
chegou a paz !



APOCALIPSE



Ouviram-se as trovoadas.
Antes, o clarão tomara o céu noturno.
Luminosidade sombria !
Estrondos terrificantes !
As lavas desceram ao vale;
O calor tornou-se insuportável.
Os animais debandaram;
A terra começou a tremer;
A criança a chorar.

Os velhos tomaram seus terços;
As mães ajoelharam-se;
Impotentes sentiram-se os homens...

Triste história a do homem.
Feliz existência a do ser.
Lamentável verdade a da morte

A morte do homem
A ida sem volta
O chegar definitivo e último.

Desceu do céu a pomba
Pousando no galho ressequido da árvore.
Olhou a solidão em volta
E voou. Voou.
Ouviu o silêncio em todos os cantos
E, em cada canto, o gosto da morte.
Voou. Voou. Não captou outro sinal de vida
Senão os emanados do seu corpo santo.

E voou, compreendendo que era só
Na sua santa paz..
E voou mais ainda sentindo maior a sua solidão
Sua santa solidão
Sua paz.

- Sujeitei-os à prova...
Nenhum resistiu à voz do inferno;
Nenhum soube morrer como o filho;
Nenhum fez do filho semelhança;
Nenhum o entendeu.

Cumpriu-se o que eles mesmos anteviram:
Buscaram a morte.
Morreram...

Voou. Voou.
E cansou de estar só no seu universo
Na sua solidão.
Olhou os homens e chorou,
Chorou.
Sorriu como criança e voltou,
Pousando na mais alta pedra,
Onde ficou.

E pensou por sete dias, findos os quais, falou:

- Por que não fazer disso vales e rios,
Serras, montanhas cobertas de árvores e lagos,
Pássaros por todos os lados, animais ?

- Corra o rio !
Nasçam a planta
e os animais !

E pode voar tranqüila por mais sete dias
Em companhia da vida não assemelhada.

- Mas que triste egoísmo o meu
Que não faço a mim o meu maior prazer ?
Por que não deixar vir o meu semelhante ?

E voou. Voou.
Sentiu-se angustiada e voou.
Viu a beleza em volta
E o perfume
E toda pureza da vida.

- E eu lhes dei tudo isso e eles não viram.
Dei a beleza, destruíram...
Dei uma vida, destruíram...
Não souberam viver como o filho,
Morreram sem ter nascido...




GÊNESIS



Ah, os homens !
Que doença os acomete
Ao sair da infância ?
A posse, o sexo, a sobrevivência ?
Oh, filhos
Por que me fazeis chorar ?
Por que fizésseis cumprir a sentença,
Deixando-me tão só ?

Durante sete dias chorou Deus convulsivamente.
As lágrimas não lhe deixaram de correr
Um só instante.

Ao amanhecer do oitavo dia,
Se fez pomba e voltou a voar.
E durante mais sete dias voou.
Voou. Na sua solidão.

Voou. Voou. Viu os animais e as aves,
Todas as montanhas, todos os vales.
Lembrou a história do homem e chorou,
Chorou...

Quis Deus destruir a si
E ao seu universo,
Mas se conteve.
Pensou na obra de Kierkegaard
E reviu Jung.
Se viu no homem
E, no homem, o eu.
Reviu Freud
E toda História.
Parabenizou Darwin
E brindou ao cinema.
Fez rodar os “sussurros”
E depois Ammaccord.
Bateu palmas a Lukács
E depois à poesia.
Leu um Érico, um Tchecov,
Serviu-se de Lévi-Strauss.
Elogiou Picasso,
Enfim, todo pintor.
Se fez pureza de infância,
Sorriu,
Quase chorou...

- Que o tudo se faça com o homem,
Que o homem se faça senhor !

Disse Deus e recolheu-se.
Descansou por sete dias
E voltou pra ver o homem.
Sentou ao seu lado
E contou de sua solidão.
Disse Deus de suas descobertas
E dos seus conhecimentos.
Disse sois meu semelhante,
E controlo o Universo.
Destruísseis ao vosso universo,
Como quase destruo o meu.
Me recolho mas vós ficais,
Sozinhos com o que é vosso.
Sereis por todo o universo,
Mas não me encontrará
Para se fazer em companhia,
Aquele que não morrer.
Aquele que não fizer como o Filho,
Aquele que em vida não morrer !




CANÇÃO EDIPIANA


Attila Wencerski


A amar, aprendi na infância.
Na ausência do peito da minha mãe.
Aprendi, portanto, pela necessidade.
Pelos prazeres concedidos ao meu corpo,
Que satisfeito deixou-se evoluir em carícias.

Aprendi a amar pela boca.
E é através dela
Que manifesto o meu amor:
Digo quero, Digo amo.
E, assim, satisfaço a paixão
Do ardente coração
Que se desfaz em chamas
De saudade de você !




DE SAUDADE



http://www.isaac2004.fee.unicamp.br/natal.php?lingua=

Passa um dia, outro dia
E você ausente.
Na memória, presente
A lembrança de sua boca fria,
De quem parte:
Arde o meu coração de saudade !

Quisera parar o mundo e dizer:
Não és justo
Nem nas pequenas atrocidades que cometes.
Por que separar de mim o meu amor
Aumentando ainda mais a agonia
Que grassa o peito desguarnecido
Desse eterno sofredor ?

Quando a vejo partir,
Não choro.
Guarneço em mim as lágrimas
Irracionais
Que deveriam rolar.
Me deixo mudo.

Se, acaso, uma palavra dissesse
Faria desabar sobre mim
A irracionalidade do querer.
Não devo querer !

Tento aguardar sua volta
Como se não existisse a saudade
Como se não existisse você.
Covarde coração o meu,
Covarde o coração da saudade.

Tento aguardar sua volta
Como se não existisse a cidade
Como se não existisse você.

Assim, parado no mundo,
Vejo passarem-se os dias.
Não sofro. Não choro.
Deixo-me envolver em poesia.
Essa, sim, se deixa a chorar por mim.

Canto a saudade,
Enterneço as criancinhas.
Vago pelas ruas da noite,
Sinto mais próxima a solidão.

Deito. Penso. Rolo.
Não chega o sono do esquecimento.
Chega o sonho
Que me embala em seus braços.
Chega o sonho que me separa do sonho.
Chega o sonho que me separa de você !



AGOSTO


AGOSTO SENTEI DE DESGOSTO PORQUE CHEGOU TRAZENDO
AGOURO A IMPRESSÃO DE QUE TUDO PASSOU E NADA FIZ
E NADA FICOU PORQUE NADA FICA A NÃO SER A OBRA O
CONHECIMENTO QUE É SOMA É FRAGMENTO E QUE TAMBÉM
PASSARÁ POIS QUE NÃO RESISTIRÁ AO TEMPO QUE TAMBÉM
PASSARÁ. LOUCO SOU COMO ESCREVO MAS
PASSAREI.

UNI-VOS

SOU TODO ABERTO COMO O MEU UNIVERSO COMO O
PRÓPRIO UNIVERSO QUE É COMPOSTO DO MEU DA ROSA DA
PALAVRA QUE DISSESTE FAZ CINCO ANOS ATRÁS ! COMO
POSSO SUSTENTAR QUE NÃO SOU LOUCO SE O UNIVERSO O
MEU O SEU O UNIVERSO É DESSE TAMANHO E CONTA A
EXPANSÃO A MINHA INCAPACIDADE EM TÊ-LO EM SÊ-LO
TOTAL ?

UNI-VOS

É SOMA É ESPERANÇA DE QUE POSSAMOS REALIZAR AQUILO
QUE SEQUER ACREDITAMOS MAS É ESPERANÇA DE
MUDANÇA QUE REALMENTE MUDARÁ PARA ATENUAR
NOSSA DOR.

UNI-VOS

VIRÁ O DIA QUE TEMO E QUE É DE LIBERDADE PARA A
MAIOR EXPANSÃO DO MEU UNIVERSO DO SER
DESESPERADO QUE SOU PERDIDO EM MEIO ÀS DIMENSÕES
FANTÁSTICAS DO MEU DO TODO UNIVERSO

UNI-VOS

OS FRAGMENTOS QUE O COMPÕEM SÃO TÃO IMENSOS
COMO O PRÓPRIO E SÃO VERDADEIRAMENTE O UNIVERSO
ABERTO EM EXPANSÃO.

UNI-VOS

VIREMOS A SER AQUILO QUE VIRÁ A SER PORQUE SOMOS
O QUE SOMOS E SOMOS VIR A SER.

UNI-VOS

SEJAMOS ! SEJAMOS ! SEJAMOS AQUILO QUE VIREMOS
A SER ! SEJAMOS ! SEJAMOS O QUE SOU O QUE ÉS
O QUE É !

UNI-VOS

SEREMOS O QUE SOMOS SEREMOS A SOMA

DOS NOSSOS FRAGMENTOS


Passarão anos
Passarão décadas
Passarão séculos
milênios

Edificar-se-ão edifícios
pontes
impérios
civilizações !

Nada conterá o canto
Que singrará os mares
reverberará nos ares
sensibilizará os lares
De toda nação !

Marcus Ottoni

QUE VENHAM
AS RENDEIRAS
OS CANTADORES
OS MEUS AMORES
VOCÊS PINTORES
OS TROVADORES
OS CANCIONEIROS
O POETA URBANO
O POETA RURAL
O SANFONEIRO
O SAXOFONISTA
O PISTONISTA
VOCÊ ARTISTA
ALMA DO POVO
REFLEXO
AMPLEXO
HOMEM SEM NEXO
ANEXO
O NOME
O CORPO
A VOZ
A MANIFESTAÇÃO !



CANÇÃO BRECHTEANA

Quando os versos se fizerem escassos,
Quando a voz se fizer omissa
Ou ébria,
Guia-me de novo ao caminho da arte.
Faça-me rever os mestres;
Ouvir as mais ternas canções;
Caminhar entre as criancinhas.

Quando não mais for de esperança o meu canto;
Quando não mais servir de alento o meu verso,
Ordena-me então que pare:
Reveja o quadro sócio-econômico da gente;
Reviva a sua cultura;
Analise a sua praxis política.

Quando não mais for necessária a canção;
Quando os tempos forem chegados;
Permita-me então que pare.
Descanse nos braços dos meus amores
E que mesmo para deleite
Continue, eu
A escrever meu canto !

Beira-mar

Marco Túlio

Sua vinda
Para nós é alegria
Poeta
Venha se molhar conosco
No nosso canto, poeta
Sujo de suor e vento
Nessa brisa de beira-mar
Nesse sol
Nessa luta infinda
Pela justiça do dia
Poeta
Do hoje
Do aqui
Do agora
Do verso que arrebenta

Na memória eterna
Do nosso muro
O nosso eu
Que implode e explode
Na onda que quebra
Na beira-mar !

Venha se molhar, poeta
Venha se molhar
Conosco nesse canto
Nessa luta
Nesse gesto
Nessa mostra
Muito louca
Nesse circo
Nessa vida
De espinhos
Amor e flores
Dessa minha canção
Colorida
De um alô
Cheio de graça
Do palhaço
Do pintor
O escultor
Entalhador
Da assombração
Do verso maluco
Disco voador
Da ilha de Aquarius
Que trouxe essa dita
Tão dita
Maldita
Tão nina,
Menina
Amada
Morena
Selvagem
Galeria do céu
Do índio Poti !

SARGENTO INTENDENTE

Soldados Romanos

Eu sou o soldado
Irmão do cabo
Sobrinho do sargento
Que recebe ordens
Do subtenente
Sargento intendente
Que ensina tenente
A ser capitão
Que um dia é major
Que pra ser coronel
Vai voltar a tenente
E ser general
Comandante de tropas
Soldado de glórias
Talvez marechal !



AMERICANO DO FUTURO


Um astronauta travesso
No espaço dançou
Feito um John Travolta
De um espirro que deu
Comeu brilhantina
Foi mais triste ainda
Quando Meméia acordou
Fez pirlimpimpim
E num tubarão transformou
A espaço-nave
Que sem ser ave
Para o céu avoou
Carregando o rapé
Que o nego Pelé
Sem ter jeito vendeu
A um marciano
Filho de americano
Que Coca-Cola bebeu
Mais a Carmem Miranda
Que ensinava ciranda
Comendo banana
Ao entardecer
Do aparelho maluco
No lusco-fusco
Da minha TV !


HABITANTES DA NOITE
moana.patentes.com/ gl/historia/FotosTiran.htm

Corujas e pirilampos
Reviram a história
E estão entre nós
Buscando e rebuscando
Iluminando
Chafurdando vidas
De pobres mortais

São o Cristo
o Pilatos
o Algoz
o homem da cabeça decepada.

Que fizeram
Que fazem
Esses bruxos do bem e do mal ?
O que são
Como vivem
E como estão
Esses seres que para cá vieram
Viajam
Conosco
Nessa sina de tropeço e cal?

Serão
Os que gargalham
Nas noites vazias dos cemitérios
Ou os que perambulam
Cá fora deles
Nos castelos e alamedas?

Será que morreram
Que estão todos mortos
Ou convivem no tempo
Bulindo
Mexendo
Eternamente?

Quem são vocês
Corujas
Pirilampos
Se habitam a noite
Gargalham
Se agitam
E choram o passado
Perdido
Da travessia ?


IMPOSIÇÃO DO SER

Verdade:
Albergues de mártires não há.
Nem alegria
Na história revertida depois.

Mesmo assim,
E pagando em dor a vida.
Verseja um canto o poeta
Rendido à imposição do ser !

Verseja
Numa contingência de ofício,
E diz
O que nem mais crê.

Sede assim, poeta
Vive o esplendor do belo;
Canta
A esperança no será.

Serás
Mártir no silêncio das palavras
Feliz,
Sem teto,
Na ingratidão dos mortais !

É duro,
Mas martelas.
Versejas:
Desnudando o homem;
Desvendando a vida.
Trazendo à cena o encanto,
A magia;
A crença num belo dia !


VELA DO TEMPO

Ah, saudade, se pudesse
Faria de ti o que fazem os jangadeiros
Que deixam suas agruras no mar !
Te deixaria para sempre como lembrança
De tempos distantes que me impediam amar !

Vai, saudade, na vela do tempo
Outro corpo tomar.
Ensina a beleza, a fortaleza
Do coração a chorar !



O BOBO DA CORTE
Danielli Christinni

Eu, o bobo da corte,
Menino vadio,
Perambulador,
Sorrio da vida;
Me afogo na dor.

Divirto a platéia;
Zombo
Do governador.
Sou rico e sou pobre.
Amado,
Chutado,
Amante eu sou !



RAZÃO ETERNA
Aguimarinho Pessoa

Desfolha a bandeira,
Poeta.
Canta ao vento,
Peito aberto,
Tua alegria incontida,
A dor,
O teu pesar,
Pra multidão que trafega
Ou caminha sem pressa
Na beira do mar !

Mostra firmeza na luta.
Labuta, sem nunca cessar.
Tua verdade é imensa.
Teu verso,
Sintético,
A existência ilumina
E ensina
Um novo pensar !

Canta, pois, poeta.
Que necessária é a canção.
Com sua esperança de festa,
Razão
Eterna
Do teu cantar !


AGONIA LENTA

Se me amas, por que fazes sofrer
O meu coração de saudade ?
Adoro a ti, que não compreendo.
Amo inconseqüentemente este ser
Que é teu e que também não compreendes.

Por que não deixas livre a tua vontade
Como deixo livres os meus versos
Que não rimam mas dizem o que sinto em melodia ?

Parece queres ver lenta a agonia
Do meu peito enfurecido
Que não se satisfaz na ausência
Da gratidão do teu contato !



COLHEITA DA ESTIAGEM

Choveu. Os passarinhos que mudavam penas e se abrigavam
em árvores ressequidas pela estiagem molharam-se. Ao
amanhecer, despertaram iluminados por um novo sol. Voaram
e viram homens em sua insignificância. Centenas de farrapos
humanos que se amontoavam famintos, sem o mínimo
necessário a uma existência digna, vagavam desoladas... Os
respingos de chuva não mais satisfariam os estômagos vazios.
Toda a colheita já estava perdida.

COMPROMISSO DE FÉ

A Manuel Bandeira
e Carlos Drummond de Andrade



Vão longe na memória
As lembranças fortes
Do verso do menino
Como os demais
Que tenho sido.

Menino que não se perdeu no tempo
Não se perdeu na história
Abriu picadas
Encontrou pedras e caminhos...

- Vai, menino, que esta estrada é que é tua !
Trilha-a e desnuda a sereia
Que ela te encherá de canções !

Vai no teu verso
E desvenda
A agrura
Da dura vida
Do povo do teu sertão !

Faz do teu verso espora
Que arranca da dor o galope
E se recolhe
Quando as visões se multiplicam selvagens
Na memória
Do cantador !

Faz do teu verso canção
Faz do teu verso bandeira
Cartilha ou oração
Compromisso da fé verdadeira !

NATAL
Hugo Macêdo
Foto Hugo Macêdo

FANDANGO DE SONHO
DE PASTORINHAS
EM BUMBAS-MEU-BOI

SONOPREGUIÇA
REDERREDINHA
NATAL




A GUERRA TOTAL


No cosmos
O satélite aprecia
A guerra
Aero-naval

Cogumelos de fogo
Ameaçam
O porta-aviões
Ameaçado
Pelo submarino-atômico
Repleto de mísseis
Que vão muito além
Do litoral

O avião espacial
Perigoso caça
Também dirigível
Na atmosfera
Manobra contra
O olho do espaço
Que faz o rastreio
Da posição inimiga

A guerra é a guerra
E os cogumelos brotam

Os papéis assinados
A ira do homem escarnece
E a bomba de neutrons
Desintegra os mortais !

O pranto da esposa
Da mãe
A saudade do filho
Não convencem
O general

A guerra não é mais de homens,
É verdade,
Mas o efetivo é pressão !

Centenas de anos
De civilizações
Destruídos
Como o poema
Como o homem no seu automóvel
Estacionado no pátio
Do arranha-céu !

FALTA O BOBO NO XADREZ


No xadrez
O rei é rei
A rainha é rainha
O bispo é bispo
O cavalo é cavalo
A torre é torre
O peão é peão
É soldado do rei
No feudo pequeno
Onde falta o curinga
O bobo da corte
Em trapalhadas reais
Com sua graça
Com sua raça
Com os seus ais !

FALTA O BOBO NO XADREZ !!!




SOTURNO CARNAVAL

Sal e sol
Contra a parafernália
Geral

Poemas e antenas
Bem atentas
Contra o mal

A sorte de estar vivo
Nesse soturno carnaval

Na fantasia do povo
Quatro estrelas
De general

A morte é o norte
O ponto final !



CAXANGÁ

Balautrada de Petróolis

PASSES MÁGICOS
NA VISÃO DO SORRISO
NA IMENSIDÃO DO MAR

LANCES RÁPIDOS
NO TROCAR PEDRAS
DO CAXANGÁ !

SORTE DE POETA





Passageiro rebelde,
Pago o preço da sorte
De ser do poeta:
Desajustado.
Inconformado com a sorte
De ver do poeta.
Que não cega:
Ilumina.
Mas dói.
E constrói,
Nas trevas, a luz:
- Do absurdo à clarividência -
Do dia menino,
O alvorecer !

LINHAS DO MANDO
Hugo Macêdo

Não sigo as linhas do mando,
Nem mando as linha a seguir.


Sou ser.
Sou gente.
Presente da mãe-natureza,
Ciente,
Do seu bem-querer.

Bem quero.
Bem amo.
E ando
Sem me prevenir.

Apanho.
Não ganho.
Confesso:
Não sei se sei resistir !

Me armo de flores na mão.
No verso,
Eu sei,
Aqui não há solidão.

Há clima.
Há luta.
Esperança de não ser em vão
O canto,
A vida,
O dia de dor do poeta,
Dia de dor da canção !



VIDA DE POETA


Abandonar a arte
E ser capitalista corrupto,
Eles querem eu faça,
Eu seja.

Taí, vida de poeta o que é !
E se não fizer e não for,
O que é que ele é ?

Comuna safado;
Direitista extremado;
Socialista iludido;
Pior inimigo da democracia ?

O que é que ele é ?
Guerrilheiro armado
- Amado ?
Brigadista urbano;
Terrorista enrustido;
O que é que ele é ?

É sonhador,
É um doido.
Poeta danoso
Da marginália.
Um bruxo maldito da corte
De Matusalém,
Que ilumina um alô qual relâmpago.
Sacode
E sabe das forças do bem.

Perigo !
Te cuida, menino:
No verso tem um mal tem um bem.
Tem um eu tem um tu tem um eles,
Quem sabe, na tua, pra eles,
Eles não te querem também ?


RAZÃO DA BUSCA

Júlio Saens

Saber
O sentido do verso,
No aberto,
Na amplidão.

Razão,
Da minha busca.
Amante.
Gigante.
De mãos e mãos !

ARQUIMEDES



Feliz, foi Arquimedes,
Que amou Odete
E saiu pra pescar.
Criou sete filhos,
Vendeu dentifrício,
Foi bom de ofício:
Arranjou Guiomar.
Comprou uma vaca,
Trancou num curral
E botou pra trepar.
Engordou porco vivo;
Cuidou de plantação
E foi passear.

Falou “ma non plus”,
Misturou o inglês,
Foi vender rádio de pilha
A japonês.

Que entrou pelo cano
Quando voltou pros panos
De Dona Inês.
E foi ser vagabundo
Onde só tinha freguês.

Que levou anos
Arquitetando planos
Para render.

Que renderam só lutas,
Labutas de lutas,
De se viver
Pelos mercados alados,
Tão tristes, coitados,
Cheios de lixo,
De especulação.

Que saiu pelos montes,
Foi sonhar fontes
De nova estação.
Ouvir,
Cantar cânticos,
Aprender a lição:

Pra ser bom soldado,
É preciso ser bom cidadão !


LAMPEJO DA MORTE


Só o fato: o engano.
Lampejo todo da morte:
Vantagem de seguir só.
A amizade de um Deus fatídico
E o pernicioso ser.
Alma de volúpia eletrizante;
Frangalho humano que se espalha
Em negras nuvens.
Abelha de um vôo plácido:
Ovelha negra
Da família imperial !


GALOPE DE SOLIDÃO


O cavalo saiu a galope
Percorrendo vales, terras, planícies e planaltos.
Saiu a galope percorrendo
Vilas, vales.
Povoados e despovoados.
Lugares onde o cavaleiro se isola
E é tão natural quanto o todo em sua volta.

Percorreu. Percorreu. Percorreu.
O cavalo saiu percorrendo vales,
Serras,
Planícies,
Vilas,
Povoados
E planaltos despovoados.

Saiu a galope percorrendo
Vales e vidas.
Planícies e planaltos
Despovoados !

SAUDADE MALUCA



Eu vi com esses olhos de menino
A chuva cair por terra
Molhando as capoeiras
Deste sertão sofredor.

Sertão que espera um ano.
Sertão que espera mais.
Sertão que não abandona
Sua sorte, sua paz.

As terras estavam tão secas
Que nem poeira subiu.
Caiu a chuva bendita.
Menina, como caiu !

Caiu um toró de repente,
Toró desses que a gente
Da cadeira do terraço
Tem tempo nem de sai.

Toró desses que me impossibilita
Montar a égua Anita
E sair feito maluco
Atrás dessa menina
Que só saudade deixou !



MANIFESTOS DE PAZ

Manifestos de paz
São esses gestos anônimos
Do cotidiano.
Esses sonhos,
Esses ideais
Que levam à transformação
Do homem,
Da sociedade.

São as coisas mais simples
Da natureza.
A flor que nasce;
O rio que corre
Manso,
Pela planície.

São as canções que enlevam
O coração.
Os filmes;
Os romances
Que arrepiam a alma,
Transcendem
E nos fazem sonhar...

São as encenações teatrais
Da periferia
Da grande cidade.

São um sim
Ou um não.
Um apelo
Levado
Pela emoção.

Manifesto de paz
É o vôo da ave liberta .
É o voto
Sincero no homem.
A carícia
Dos apaixonados...

Manifesto de paz
É um verso.
Uma adesão
Aos que lutam
Por um mundo de paz.

É a festa.
O sorriso.
A comunhão
Na alegria,
Na dor.
É a cor
Azulada do céu.
É a prece
Por um mundo melhor.
A porta
Aberta
A qualquer um !

Manifestos de paz
São os limites vencidos.
Os recordes batidos.
A descoberta
De uma Lei.

São eles
Que levam o homem
Ao seu destino final:
De justiça;
De igualdade
Entre os mortais !!!



REALIDADE NOTURNA
Vincent

É noite. Não chove. Não faz frio.
Não existe o silêncio.
Sons existem.
A realidade noturna
Só os sentidos podem captar.
Como qualquer outra realidade existente.
A não existente,
A mente.

É dia. Chove. Faz frio.
Não existe o silêncio.

Batem os pingos;
Latem os cães;
Os automóveis trafegam.

É tarde,
Vou dormir...




Eduardo Alexandre